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Boa demais para ti

Certa vez disseram-me que eu era boa demais para ti. Colocaram o meu amor a leilão e apostaram que não tardaria muito a aparecer alguém melhor. Um rapaz que realmente se importasse ao invés de alguém que fica semanas sem telefonar e manda uma mensagem a meio da madrugada, dias depois do último encontro, a dizer que está com saudade. Como se essa palavra fosse a senha do meu coração. Disseram que eu deveria conhecer pessoas novas. Entrar num curso de gastronomia, viajar pela Europa nas férias ou ocupar os meus domingos com idas ao parque. Nunca fiz nada disso, pois tive a certeza que jamais te encontraria nesses lugares. Escolhia o caminho mais longo só para talvez me cruzar contigo casualmente na rua, fui todas as sextas do último mês àquela festa em que nos conhecemos e aos domingos, escrevi e apaguei mensagens que nunca foram enviadas ao som daquela música. Tu nem deves saber o nome da nossa música.

Eu sei que o problema não é comigo. És tu e esse medo de te prenderes a alguém e gostares da sensação. Preferes continuar a cair ao invés de descobrires se o paraquedas funciona. Eu conheço a tua história e sei que não tiveste um passado fácil. Queria que soubesses, mas queria que soubesses antes que seja tarde, que nem toda a gente é como o teu pai. Os fantasmas mais assustadores são aqueles que nós mesmos criamos. Já te disse, e repito, a tua vida não deve ser uma consequência dos erros que ele cometeu quando tu ainda nem podias sentar no banco da frente do carro. A única herança que é tua por direito, além desses lindos olhos azuis, que às vezes me parecem verdes, é o lugar onde tu e a tua irmã vivem. Agora está escuro lá. Talvez frio. Mas um dia vocês descobrem como se liga a luz.

Fico a pensar, ninguém te conhece de verdade. Se tu lhes desses essa oportunidade, certamente veriam o que eu vejo. Sentiriam o que eu sinto. Eles acham que é só mais um caso perdido e vai acabar como todos os outros rapazes. Eles vêem o mundo na mesma perspectiva até ao último dia. Esse não é o teu final. De longe percebi, um dia destes enquanto apanhavas o metro, que toda a gente é só um ponto solitário. Ao teu lado, no entanto, somos dois. Quem sabe, um dia, três. O mistério das reticências combina connosco.

Sinto falta das nossas conversas sobre o que já não falo com ninguém. Dos teus desabafos mesmo no meio da melhor parte do filme. Parece parvoíce, mas era bom ter um espaço no sofá da tua sala. Um dia fomos grandes amigos. Os conselhos que me deste já me levaram para diferentes lugares. Até que o teu ombro passou a ser o meu travesseiro mais macio. Eu apaixonei-me perdidamente por aquele rapaz que sabia sempre o que dizer. O problema é que deixamos o amor nascer num labirinto e agora, a nossa antiga amizade, não consegue encontrar a saída.

Esta é a última vez. Antes de me despedir e apertar o botão sem retorno, que leva estas palavras até ti, aviso. Eu não quero consertar-te. Nunca quis. Quero é provar que podemos ser exatamente assim, cheios de defeitos e sem nenhuma garantia. Invisíveis para o resto mundo, mas o suficiente um para o outro.

Texto de Bruna Vieira

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