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Carta de uma amante para a esposa

(Esta é uma carta de resposta. Caso não tenhas lido, aconselhamos-te a ler primeiro este texto).

Aposto que te sentes vitoriosa com a decisão que tomaste. Antes das dúvidas, da realidade e das dores te atingirem. Aposto que também andaste ansiosa por saber se alguma das tuas palavras tinha tido uma reação em mim, se eventualmente poderias receber uma resposta à tua carta.

Apesar de tudo, custa-me escrever estas palavras, mas há coisas que tens de saber, principalmente que isto não é uma vitória, nem foi uma corrida, nem tão pouco uma competição.

A primeira vez que as coisas aconteceram, (não que isso te interesse realmente), a culpa consumiu-me. Sim, eu sabia que ele tinha alguém, sabia que ele te deixava em casa para estar comigo, que ia com o meu perfume para casa, com o meu sabor na lembrança, com as promessas fáceis que fazíamos na memória.

Infelizmente nem todos têm a coragem que nós, mulheres, fomos dotadas à nascença.

Tu a coragem de aguentares a dor de saberes isto durante um ano, eu por aguentar a espera durante o mesmo tempo. E ele, sempre na cobardia, nunca teve coragem para escolher com quem queria ficar. “Preciso de tempo, as coisas não são assim tão simples!”, dizia-me. E eu calava-me, consentia, achava que com o tempo ele iria perceber que o que nós tínhamos era único e digno de uma linda história de amor.

Acredita que para alguém infiel, ele até tinha um pingo de fidelidade, pois nunca passou uma noite comigo, “como é que ia justificar ter de dormir fora de casa?”, nunca tive o prazer de ter conhecido o seu colo para adormecer e que bastaria para acalmar os meus medos, as minhas dúvidas, os meus demónios… (Sim, continuo a ser humana!), nunca soube o que era acordar ao lado da pessoa que amava, o que era abrir os olhos e vê-lo ali, sereno, ao meu lado, esquecer que existia toda uma vida real fora dali. Onde existias tu. O vosso casamento.

Nunca pude fazer planos a dois, sofria em silêncio a minha dor, destinada a quem se permite ao lugar que eu ocupava e, portanto, sem direito a ser verbalizada. Enquanto isso, ficava deprimida, com raiva, em casa, a imaginar a sorte que tu tinhas. Afinal de contas, tu podias adormecer e acordar ao lado dele, tu podias ter o cheiro dele em ti todo o dia, sem teres de procurar um bocadinho de camisola que ainda tivesse guardado o perfume dele. A sorte que tu tinhas em, apesar de tudo, seres sempre A mulher. “E as coisas não eram assim tão simples”. E na verdade eu nunca passei de uma distracção.

Mesmo quando ele chegava tarde e se preocupava em avisar-te. Sim eu sei, um cão. Mas acabava por ser a réstia de consideração num cobarde sem carácter.

E eu ficava ali, no meu lugar, enquanto compactuava com tudo isto, revoltada mas serena, com os remorsos a consumirem-me mas a raiva a perguntar-me como seria possível que alguém estivesse a deixar um homem como ele fugir. Como seria possível que tu fosses tão desatenta? Mulher nenhuma era assim tão desatenta! “Nós nem conversamos, eu nem a oiço quando ela fala comigo”, dizia-me ele com desalento e algum pesar, era isso que me alimentava a esperança de que provavelmente vocês já nem gostavam um do outro, e existia apenas o hábito! Ah, o tramado do hábito e do comodismo.

“Porque seria um choque para toda a família! E as coisas não são assim tão simples…”

Por tudo isso eu nunca me importei que ele levasse o meu perfume para casa, eu nunca me importei de acidentalmente lhe marcar o corpo, de mendigar para ele arranjar um tempo para mim. Porque tu tinhas toda a sorte do mundo!

Sei que por muito que te queiras convencer que agora está tudo bem, nunca estará, vais massacrar-te a tentar descobrir onde falhaste, onde deixaste abertura para isto acontecer. Não deixaste, porque a culpa nunca foi nem será tua.

E peço-te, não me interpretes mal, não estou a escrever isto para te provocar ou magoar mais ainda.

A tua carta fez-me pensar e cheguei à conclusão que o bom de termos sido a segunda opção de alguém é que nos ensina que devemos ter mais respeito por nós próprias. Portanto, não vou permitir ser opção de alguém novamente. E como sei que um homem capaz de trair uma vez também é capaz de trair novamente, não quero sentir a amargura que tu estás a sentir e por isso não me vou sujeitar a estar na tua posição daqui a uns anos. Quero alguém que esteja inteiramente comigo nos bons e maus momentos, e não alguém que me abandone em momentos menos bons para encontrar algum tipo de consolo fora de casa. Ou, se por loucura alguma vez o fizer, que tenha pelo menos a decência de não me esconder isso.

Porque quando se ama alguém como eu amei, a outra pessoa tem de entender que isso é um sentimento merecedor de exclusividade.

Adeus para ti também.

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