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Já era amor antes de ser.

Amor foi a forma como tu me abraçaste no segundo encontro, me puxaste mais para perto de ti e me apertaste como se me dissesses: ”por favor, cria raízes em mim”. Amor foi quando tu me olhaste e eu tirei o telemóvel do bolso para mexer em qualquer coisa que servisse de desculpa para eu desviar o olhar, e só queria abrir qualquer buraco para entrar e esconder-me de ti. Amor foi quando tu arrastaste a cadeira para perto de mim e colocaste os braços nas minhas costas. Quando tu encontraste um amigo no shopping e apresentaste-me como tua namorada mesmo não sendo oficialmente. Foi quando tu me abraçaste na vinda para casa e já fazias planos para o outro dia. Quando tu atiraste o braço direito por trás de mim e me pescaste para mais perto de ti, foi quando o teu braço ficou dormente e tu não te queixaste, foi quando encostaste o meu rosto no bolso do teu blazer e apertaste o meu queixo com o polegar e o indicador. Amor foi à vinda para casa quando tu me seguraste pela cintura e encostaste a cabeça no meu pescoço. Amor foi quando tu escreveste, sem perceber, o número do meu telefone e me ligaste, quando na verdade querias ligar para o banco. Amor foi as nossas conversas longas e o silêncio de quando não existiam mais assuntos e recusávamos desligar a chamada. Amor foi quanto eu espirrei e tu mudaste o caminho para a farmácia mais próxima, foi quando eu reclamei do frio e tu chegaste mais perto, envolveste as tuas mãos nas minhas e disseste que só não tiravas a camisa para me cobrires porque eu não ia gostar.

Amor foi quando tu me mostraste a lua e falaste algo sobre os signos como se estivesses a mostrar o que o universo inteiro e essa energia toda diziam sobre nós. Amor foi quando tu me surpreendeste com os bilhetes para o concerto que eu esperei o ano inteiro. Foi aquela nossa viagem de fim de ano. Aquele beijo debaixo do chuveiro, aquela carta que escrevi à última hora e que te enviei porque achei as flores quietas demais para tu sentires o que eu estava a sentir. Amor foi quando tu aceitaste sair quando estava a chover, e quando preferiste ficar na cama comigo num dia de sol. Foi quando as rosas que te dei murcharam e tu guardaste uma pétala dentro do teu livro favorito como recordação. Foi amor porque todo o muito se tornou pouco, todo o tempo se tornou curto, cada sorriso uma eternidade e a saudade algo incalculável. Foi amor porque todas as noites pareciam únicas e cada dia era uma nova oportunidade para te ver e te sentir.

Amor foi dividir um frasco de gelado enquanto assistíamos ao filme “Prometo Amar-te”. Foi quando te perguntei o que é que tu farias se um dia eu perdesse a memória e esquecesse de tudo, e tu disseste que viverias tudo de novo, que me devolverias os sorrisos e que me darias ainda mais motivos para sorrir. Amor foi quando tu esqueceste da dieta para dividir uma pizza comigo. Foi quanto falei de ti para os meus amigos, foi aquela tremedeira que me deu quando tive de me apresentar para os teus pais. Amor foi o medo de dizer asneiras, de dizer mais do que deveria, e de, por qualquer descuido eles não gostassem de mim e te obrigassem a desistir de tudo. Amor foi passar horas a baixar todas as músicas que tu querias mas não conseguias encontrar na internet. Amor foi quando tu trancaste a porta do quarto para eu ficar, foi quando me ofereceste cafuné e um colo para deitar quando me queixei de dores de cabeça. Amor foi quando tu desmarcaste alguns compromissos para me veres.

Amor foi quando arriscaste fazer o bolo do meu aniversário com poucos ingredientes e com pressa que eu chegasse e estragasse a surpresa, mas eu nem cheguei. Amor foi quando eu disse para não me ligares e tu encheste a minha caixa de mensagens com letras de músicas que tu dizias fazerem parte da nossa banda sonora. Amor foi quando eu estava a ir embora e tu me seguraste e beijaste com força. Foi quando tivemos a primeira discussão séria e tu me ligaste desesperado como se eu estivesse a sair da tua vida.

Amor foi quando os nossos destinos se cruzaram e tu mudaste toda a tua rota para ir comigo para um lugar que nem eu mesmo sabia. Amor foi quando tu preferiste ficar calado para não me magoares, foi quando tu percebeste que havia algo de errado e sentiste que eu estava prestes a pegar nas minhas coisas, fazer as malas e sair da tua vida. Amor foi quando tu seguraste na minha mão e eu soltei, a fingir que estava a ajeitar o cabelo, mas tu insististe. Foi quando me convidaste para pisar na areia da praia, foi quando tu foste na frente e me chamaste para ir contigo, mostrando que estava tudo bem e seguro, que era estupidez minha desistir de tudo agora. Amor foi quando tu pegaste na minha mão e me levaste para sentir as ondas calmas baterem nos meus dedos e, talvez, me fazeres entender que tu eras a calmaria que eu precisava para não virar o meu barco mais uma vez. Mas nesse dia eu só conseguia sentir a água gelada e tudo o que eu queria era voltar para casa. Amor foi quando tu percebeste que eu estava a recuar, foi quando tu poderias ter-me deixado ir, mas mesmo assim preferiste ficar. Amor foi quando eu soltei as tuas mãos e mostrei-te o caminho para tu seguires sem mim, foi quando tu seguiste mas disseste que amanhã me ligarias.

Amor foi quando a minha inquietação desapareceu, foi quando eu finalmente decidi voltar para ti de braços abertos e te disse que contigo eu tinha descoberto o caminho para o amor, e tu me disseste que a nossa viagem ainda só agora estava a começar.

Texto de Iandê Albuquerque (editado)

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