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Não aceito metades e não me entrego em pedaços

De hoje em diante será desta forma. Sob as minhas leis e as minhas regras fica decretado que de mim receberão exatamente o que me derem. Na mesma ordem e proporção, com o exato tamanho e ênfase. Aqueles que me presenteiam com amor serão cobertos pelos meus melhores sentimentos. Quem me dedicar o seu tempo e a sua atenção, pode estar certo de que ganhará de volta a minha dedicação e disposição. A palavra de ordem agora é: reciprocidade.

Tu já reparaste como anda este mundo? A amabilidade perdeu o sentido, tornou-se aparentemente desnecessária e inusual. As gentilezas tornaram-se piegas, os favores são nada mais que obrigação de alguém que deve atender prontamente os interesses alheios. A cordialidade desapareceu na agitada e insana rotina da cidade. A gratidão é mecânica, apressada e esquecida assim que se vira a esquina. As pessoas querem para si sem dar nada em troca.

Não, eu não quero isso para mim. Eu quero uma vida inteira com os meus semelhantes, pessoas que me acrescentem e não que me roubem. Não faço questão de muito. A quantidade não me preenche. A qualidade basta-me. É isso. Eu quero pessoas que acrescentem à minha vida com as suas modestas atitudes sinceras, com a simplicidade dos gestos legítimos, a confiança da mão estendida e do olhar afável. Eu procuro quem tenha tempo para me ouvir e também para me aconselhar. Alguém que se preocupe realmente comigo e com os meus, que esteja ao meu lado nas vitórias e nas derrotas, e quando nada puder fazer para me tirar do abismo, que se sente ao meu lado, me abrace e me faça companhia.

Talvez a simplicidade do que eu procuro e admiro seja complexa demais aos olhos da superficialidade. Enquanto para mim esse é o maior tesouro, para os outros não faz o menor sentido. O mundo está cheio de pessoas que querem para si sem dar nada em troca, impondo que as suas vontades afetivas sejam feitas pelos outros e sem terem o mínimo esforço de lhes retribuir o carinho recebido.

Não, não me façam perder o meu tempo, que já é pouco, com pessoas que só querem sugar o que eu tenho de luminoso e bonito, extorquindo sorrateiramente da minha alma tudo o que sou e que me pertence. Não roubes nada de mim, por favor. Pede-me. Sê honesto comigo e eu dar-te-ei o meu mundo. Não me enganes. Não me ludibries. Não me faças de tonto. Se queres um bocado do meu amor, oferece-me um pedaço do teu. Ou nós trocamos, ou nada feito.

Pronto. Assim seremos verdadeiros e confiantes uns com os outros. Coloquemos sobre a mesa o que podemos dar, o que procuramos para nos complementar, e que a reciprocidade reja a ordem – ou desordem – da vida.

Quem aceita o pouco passivamente acaba por se acostumar à mediocridade, habitua-se a receber menos ou absolutamente nada em troca. E as relações são feitas disso, de intercâmbio, de uma via de sentido duplo entre ações e reações, entregas e recompensas. Aquele que não queira dar nada ao outro, que se recolha à sua suposta auto-suficiência e não exija do outro o que não lhe quer dar.

Atenção àqueles que nos procuram apenas quando lhes somos úteis. De hoje em diante permanece o amor, a amizade e a dedicação como moeda de troca. Aqui, na minha vida, só entra quem for convidado.

Texto de Karen Curi

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