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Para os corações partidos

Eu fico em silêncio, por mais uma noite.

É em noites como esta que as dúvidas me encobrem por completo; são estas as noites em que as perguntas ressurgem, e me fazem engasgar – voltam as dúvidas e as perguntas. Muito mais como uma dor antiga do que como uma injeção de adrenalina momentânea, elas fazem-me lembrar de que eu não estou pronto.

Eu não sei se algum dia vou amar de novo; eu não sei nem ao certo se sou capaz de amar novamente. O amor parece-me uma ideia muito distante agora – como tu, desde que desisti de tentar criar laços em cima de nós; desde que me permiti viver um tempo sozinho.

Descobri em mim mesmo coisas o suficiente para duvidar de um sentimento tão forte; aparentemente, estar sozinho é uma opção também. Uma opção menos aceite e menos cogitada, mas tão boa quanto. Amar-me talvez tenha sido a melhor coisa que me aconteceu – e o primeiro passo para eu descobrir que esperar por ti era ridiculamente decepcionante.

Eu gostei de ti. Pra caralho. Gostei de ti muito mais do que gostei de mim mesmo – e esse foi exatamente o problema. Porque gostar de alguém inclui amar-se antes; esquecer de si mesmo já nos prova o quão errado esse relacionamento está a tornar-se. Demorei para entender que o amor de verdade só acontece quando dois peitos estão a transbordar em simultâneo, e não vazios. Demorei para entender que o teu silêncio, durante todo esse tempo, significava mais do que as tuas poucas palavras.

Abro a janela, à procura das estrelas; a noite ainda só começou. A minha vida parece que também resolveu começar agora. Pela primeira vez, em muito tempo, o coração que pulsa dentro de mim bate pela minha sobrevivência plena, e não por disfunções hormonais geradas por um rostinho bonito; pela primeira vez, eu não estou apaixonado. Pela primeira vez, eu não tenho em quem pensar. Não tenho com quem conversar, quem chamar para sair, ir ao cinema, tomar um café. Não tenho alguém para chamar de meu – e, por enquanto, nem sequer pretendo.

Não somos prémios usados como enfeites de mesa. Gostar de alguém inclui saber que aquela pessoa tem uma vida, cheia de planos e nuances como a nossa. Gostar de alguém inclui saber que ela é uma alma livre; e esse é o charme do sentimento – querer gastar um tempo da tua liberdade com um outro espírito.

O ar que entra nos meus pulmões pela janela está frio; na rua, os nove graus do inverno misturam-se com as luzes alaranjadas dos postes. Não há quase ninguém; um mendigo dorme debaixo de uma árvore. Um senhor atravessa a rua sem carros. Uma menina chora, em algum canto da cidade. Vidas acontecem a todos os instantes. Vidas riscam-se e rabiscam-se das listas do mundo a cada segundo. Quantas chances de me desenhar por essas esquinas eu perdi, por acreditar que esse sentimento doentio era verdadeiro? Quantas chances eu perdi, por acreditar em nós dois?

O amor acontece – e ele é lindo, pleno e misericordioso. O amor cura, acalma e reanima. Mas o amor tem uma chance mínima – quase pífia – de acontecer para os dois lados ao mesmo tempo. O amor não é justo, mas é sincero – se não aparece, não tem jeito; não dá para cultivar uma semente que nunca foi plantada. E, basicamente, entre nós dois, foi isso o que aconteceu.

Amei-te da mesma forma que esta noite se desenrola; sem pressa, com vontade de ficar, pedindo mais paciência e mais cobertores. Amei-te como a noite – apostei no escuro todas as minhas fichas. E eu sei, agora, que foi impossível para ti sentir algo de volta – nós não obrigamos os sentimentos a simplesmente acontecerem. Nós não obrigamos o nosso coração a amar alguém.

O vento frio corta-me as bochechas, adentrando os meus pensamentos; faz algum tempo, desde que nos vimos pela última vez. Já faz algum tempo desde que eu senti borboletas no estômago por alguém. Não me importo. O meu melhor encontro foi ver-me no espelho e, pela primeira vez, reconhecer-me. O meu melhor encontro foi desencontrar-me de ti; deixar-te ir, embora sem que tu nunca tenhas chegado. Deixar-te ir, e a todas as situações imaginárias e hipotéticas que eu alimentava de três em três horas, diariamente, e que falavam sobre nós dois.

Fecho a janela e decido escrever. Escrevo sobre nós, como sempre escrevo. Sempre acreditei que tu eras a minha única inspiração; mas percebo, agora, que tu nunca passaste de uma desculpa. A minha única fonte de motivação para correr maratonas com as palavras tem sido o amor; na sua forma pura e bruta. O amor por mim mesmo, pela vida, pelos nós que engasgam os nossos laços. O amor pelo amor.

Eu não sei se vou amar alguém de novo; e confesso que não sei se quero. Eu não sei se vou amar alguém de novo, mas o amor que mora em mim nunca vai acabar. Eu não sei se vou amar alguém, ou se já amei algum dia; mas brincar de caça ao tesouro também faz do amor uma das drogas mais viciantes do mundo. Nós queremos sempre mais. Nós queremos sempre descobrir mais. Nós queremos sempre embebedar-nos mais um pouco de amor.

E, agora, ao encarar a lua que clareia a minha mente, eu descubro em mim mesmo o maior presente do Universo.

Porque eu amo.

Descobri que amar–me é lindo, essencial e extremamente necessário.

Descobri que amar o amor é básico, irracional e puramente maravilhoso.

Descobri que o amor acontece. E isso já me basta. Seja ele justo ou não, simultâneo ou momentâneo, doloroso ou recompensador, não importa; eu quero mais uma dose de amor. Pode descer. Pode inundar-me.

Afinal, a noite está apenas a começar; e a minha vida também. E eu vou encontrar-te, amor. Um dia, em algum lugar.

Texto de Luiz Menezes

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