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Prometo-te.

Um texto que tem tanto de fantástico e maravilhoso como de triste, mas que vale a pena ser lido do início ao fim. Uma lição de vida, uma história de amor sem fim:

Amo olhar para ela. Simplesmente olhar.

Mas amo especialmente quando a tenho deitada à minha beira, mesmo do meu lado, naquele seu estado mais angelical possível. Amo que, no meio de mais uma das minhas insónias, a possa ter do meu lado como quem me apoia, mesmo sem ela saber. A presença dela deixa-me calmo, como se não houvesse qualquer outro lugar onde quisesse estar… só aqui.

Sei que ela não sabe, nem sequer sonha que eu passo horas a vê-la dormir enquanto não consigo acalmar o cérebro. Ela não sabe, e nunca vai saber.

Neste momento tenho as ideias confusas, vista cansada, corpo dorido depois de mais um dos 365 dias do ano. Dias que parece que passam cada vez mais devagar. O que eram antes dias alegres e rapidamente acabados, são hoje noites em claro, em que não consigo dormir mais de uma hora seguida… se calhar nem chega a tanto.

Tenho uma casa, um carro, um emprego e uma mulher que posso chamar de minha. Diria que para os meus 20 e tais já estou bastante bem na vida, bastante acima da média dos da minha idade. Considero-me um sortudo. Ou pelo menos considero que já o fui.

Hoje sou insónias. Ontem e hoje, e provavelmente amanhã também.

Sinto que me falta tudo, embora tenha tudo. Sempre me esforcei para alcançar todos os meus objectivos; estudei, trabalhei, suei, parti a cara, e aqui estou. Mas apesar de tudo isto, apesar de ter o meu curso acabado, o meu emprego merecido, o meu salário até confortável, o meu apartamento pacato e a mulher que sempre considerei como a dos meus sonhos, simplesmente me falta algo…

Repito-me várias vezes porque nem eu acredito nisto, não acredito que possa ter chegado a este ponto… em que me torno num egoísta hipócrita. Quero olhar para tudo isto de outra forma mas não consigo, a minha mente já nem deixa.

Sei que há uma parte de mim que a ama, que há uma parte de mim que tem medo de a perder. Mas sei também que há outra parte que já não a quer, que a culpa por tudo e por nada. Mas acima de tudo, sei que ela me ama. Não sei como é que o sei… na verdade, não sei porque é que ela ainda o sente…

Só sei que a única coisa que não mudou após todo este tempo foi a forma como gosto de a ver dormir. Mesmo a dormir continua a ser senhora de si. A forma como mesmo neste estado puro consegue ser charmosa, atraente e sensual, mas ao mesmo tempo uma flor, tão simples e tão frágil.

Sinto-me um monstro ao vê-la assim tão vulnerável, ao saber que como homem dela devia abraçá-la e assim protegê-la, mas não consigo. Quando a minha mente está a 1000 e devia estar a 1 não consigo agir por instinto, sem pensar, sem colocar hipóteses e cenários e sem trazer lembranças. Ainda para mais vendo-a assim… chego à conclusão que o monstro que eu me sinto a sentir é apenas uma fraqueza da minha parte, ao ver que tal criatura consegue ser tão perfeita.

Sempre a achei perfeita.

Aquele riso por que milhares caíam e provavelmente ainda caem de amores; aquele olhar misterioso que sempre me fez questionar a mim mesmo sobre as minhas capacidades de realmente o conseguir desvendar; aquele rosto que sempre fez turistas se apaixonarem; aquele cabelo que sempre reluziu e sempre me cativou; e sem duvida aquele corpo que sempre muitos desejaram.

Sei que não fui o primeiro e ainda bem que não o fui. Agora tenho a certeza que se o fosse não ia conseguir aguentar com tanta pressão psicológica.

Mas também não fui o vigésimo nem coisa parecida, graças a Deus.

Ela costumava dizer-me que sou como se fosse o primeiro, e que sentia que era por mim que durante tanto tempo tinha esperado. Tenho saudades disso… Saudades de quando os olhos dela brilhavam ao olhar para mim. Olhava para ela, olhos nos olhos, e via paixão e felicidade. Ela sempre foi muito expressiva. Bastava-me olhá-la para saber o que se passava naquela mente.

Até ao dia em que deixei de o conseguir.

O olhar dela cerrou-se. A face cerrou-se. A mente cerrou-se. E houve dias em que o brilho que eu lhe via nos olhos lhe escorria pelo rosto. Acho que não era o mesmo tipo de brilho, este era outro. Um que nunca lhe tinha visto e que no meio de tantas facetas espectaculares que já lhe conhecia, essa eu não consegui reconhecer de forma nenhuma. Foi como se a visse a incorporar a personagem de alguém que não ela. Nunca consegui compreender o porquê… Até hoje.

Lembro-me de quando tudo começou, de como se desenvolveu, do esforço que coloquei para a conquistar, da maneira como ela me sorria e me lançava aquele olhar tão doce e sensual. Lembro-me das tardes que passámos, das flores, dos passeios, dos risos e dos abraços. Lembro-me de que a única coisa que queria era o bem-estar dela e de que dava quantas voltas fossem precisas ao mundo por ela. Lembro-me das fotografias tiradas e das brincadeiras improvisadas.

Tenho saudades de tudo.

Nunca eu soube que ia amá-la tanto…

Arrependo-me das vezes em que lhe gritei, em que fui bruto, em que não a protegi. Devia tê-la amado mais, como no início! Devia ter dado o braço a torcer mais vezes, mesmo quando era eu quem tinha razão. Devia tê-la abraçado quando se lavava em lágrimas. Devia ter pensado e agido de forma diferente quando ela andava depressa dum lado ao outro da cozinha a gritar comigo e a chorar e a acusar-me de tudo e mais alguma coisa. Não me esqueço de como o fazia, continuava a ser a mulher mais perfeita que conheço.

Tenho saudades dos tiques dela. A forma como jogava o cabelo para trás, o facto de ter comichão no nariz quando se irritava, a ruga que fazia na testa quando duvidava de algo, o andar de um lado para o outro quando estava ansiosa, o coçar a cabeça quando queria expor uma ideia ou um argumento e não conseguia, o morder o lábio quando estava a pensar…

Lembro-me do primeiro “bom dia” com um beijo que ela me deu, apareceu com um croissant e um copo de sumo e deitou-se ao meu lado. Lembro-me das noites em que em vez de irmos jantar fora e/ou sair, ficávamos a falar no sofá deitados. Lembro-me da facilidade que era estar com ela. De como a vida ganhava sentido. De como tudo parecia mais fácil… ela fazia todos os problemas desaparecerem. Tinha sempre a palavra adequada para cada momento, o conselho infalível naquele doce tom de voz.

Sei que o que vivi com ela nunca viverei com mais ninguém. Não porque o tempo não volta atrás, mas sim porque como ela não há outra. E mesmo que houvesse, continuava a quere-la na mesma.

Porque ela é ela.

Aquele jeito de dançar, de andar, de falar que não podia encontrar noutra pessoa porque é só dela. Acho que é isto o que significa amar alguém. Ou melhor, é isto que significa amá-la. Precisar dela na minha vida, uma parte de mim depender daquela mulher.

Não no sentido físico mas no espiritual, emocional.

Estou capaz de acreditar que se vivi 1000 vidas antes, então que em todas nos encontrámos e nos amámos, porque mais forte que isto não há. Mas estou capaz também de acreditar e dizer que se nos encontrámos noutras mil vidas, porque é que tem de ser nesta em que a vejo a ir-se aos poucos? Sem nada poder fazer, sem a poder ajudar. Pela primeira vez sinto-me inútil, impotente.

Por muitas discussões e confusões que tivéssemos travado, nada é como agora. E abre-me um buraco no peito quando caio em mim e vejo que já nada é possível remediar. Eu quero mas não posso, não consigo. Não há nada no homem que sou que me ajude a mudar isto. Não há nada na vida que mude isto.

E a dor de ver a mulher que amo deitada numa cama onde todos os dias luta pela capacidade de viver mais um dia é inexplicável.

Todos os dias procuro por uma solução mas não parece existir nenhuma.

Os médicos fazem questão de me dizer que estão a fazer o melhor possível, que se houver alguma novidade me dirão, enfim, aquela treta que se vê nos filmes… Só me resta ficar aqui deitado ao lado dela, a fazer-lhe companhia, dar-lhe apoio, dar-lhe todo o amor do mundo que ela sempre mereceu, manhã após manhã.

A mulher que em tempos passava horas a fio a rir, super extrovertida, com uma energia inigualável e infindável é agora uma mulher frágil, pálida, triste.

Quando abre os olhos para me ver, sorri e esforça-se por manter esse sorriso, mas eu sei… sei que já nem força para isso ela tem.

Não consigo acreditar que aquela mulher poderosa, que aguentava o mundo de tudo e todos e mantinha sempre aquele sorriso encantador está agora assim.

Não consigo…

E eu faço-me de forte para lhe dar força, mas como lhe posso dar força se mal tenho força para me aguentar por vê-la assim? Por saber que de um momento para o outro posso já não a ver abrir os olhos? Vê-la sorrir? Por saber que do nada posso nunca mais lhe dizer que a amo? Como é que se arranjam forças para enfrentar isto?

Se eu soubesse, se ao menos eu soubesse…todos os dias lhe tinha dado flores, todos os dias lhe tinha roubado sorrisos, todos os dias a tinha abraçado e protegido… mas eu não sabia, eu nunca pensei…

Estou aqui e mal ouço a respiração dela… parece um passarinho frágil e indefeso. O que me acalma é o bip consecutivo da máquina a avisar-me que ela ainda está cá, que ainda posso faze-la sorrir e dizer-lhe que a amo e que a vou sempre amar, que é tudo para mim. Mesmo assim este bip torna-se algo doentio, parece a ampulheta da vida, a dizer-me que ela ainda está viva mas que pode já não estar daqui a bocado, que o tempo é incerto.

E por isso sou insónias. Sou insónias porque se adormeço, acordo logo ao final de 15 minutos de sono, porque não suporto pensar na possibilidade de ela ir enquanto eu não estou mentalmente presente, não suporto não olhar por ela quando o devo fazer, não suporto não cuidar dela agora. Não tolero a mim próprio dormir enquanto a mulher da minha vida luta o melhor que consegue por ficar cá.

Não tolero…

Já encomendei rosas, devem chegar daqui a 10 minutos, altura em que ela deve voltar a acordar. Quando acordar vou-lhe pedir que não me deixe, vou-lhe pedir para lutar porque não suporto a ideia de a perder seja de que forma for, vou-lhe pedir para ficar porque a amo. Vou-lhe lembrar das nossas conversas, das confecções de bolos que fazíamos ao fim-de-semana, dos almoços que dávamos lá em casa para os nossos amigos, das pizzas que fazíamos em conjunto e que acabávamos por sujar mais a cozinha do que as comer propriamente, vou-lhe lembrar do quanto a amo e do quanto quero que melhore, vou-lhe lembrar da promessa que lhe fiz da aliança, vou-lhe prometer que nunca a vou deixar.

Só queria que se fosse para a levar para longe de mim, que me levem também pois não aguento imaginar a minha vida sem ela.

Se isto é obra de Deus, Ele que me leve também, aos poucos, como está a fazer com ela… que pare de nos torturar e testar. Ele era suposto dar vida e não tirá-la, ou pelo menos não a tirar agora, a nós, com estas idades. Nós que fizemos o melhor que podíamos. Não é justo, Ele nunca foi justo com ela. Ela não merecia, não merece! Porquê fazer algo tão mau a uma pessoa tão boa?

Já não falo por mim, falo por ela, ela não merece e eu sou capaz de tudo por ela. Trocava a vida e a salvação dela pela minha alma, dava todos os meus órgãos por ela, porque é que Ele faz isto? A uma pessoa tão boa, dar-lhe um destino tão mau, tão sem esperança, sem nada a fazer para a salvar. Porque é que isto tinha que ser um contra-relógio, porquê?

Amo-a e onde ela for eu vou também, também lhe prometi isto.

Não vou mais deixar que isto nos enfraqueça, nos separe, porque não enfraquece nem separa. O facto de ao fechar os olhos por 2 segundos que seja é-me suficiente para saber que é com ela que quero estar, seja na vida na Terra ou na dimensão a seguir.

E Ele pode controlar tudo, ou quase tudo, mas isso…
…isso não controla.

Um texto de Susana Melo

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