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Se o amor da minha vida não chegar…

Se o amor da minha vida não chegar, vou escrever sobre todos os meus casos de amor. Em de-ta-lhes. E vão ser vários. Vou chorar com as amigas, fazer um bolo de chocolate, depois vou para o ginásio e mais tarde vou pintar o cabelo de loiro. Vou odiar tanto a cagada que o cabeleireiro fez que nem vai dar tempo sequer de me lembrar quem era esse otário que me fez chorar. Vou fazer hidratação e vou voltar a ter o meu cabelo castanho de sempre, só que com um pouco menos de brilho, porque não há cabelo que aguente uma água oxigenada. Vou comprar batons de várias cores chamativas e misturar com roupas de cores diferentes. Até azul eu vou comprar. Quem sabe eu até resolvo fantasiar-me de alguma coisa…

Vou alugar um apartamento só meu. E vou pintar uma das paredes de vermelho. Vou começar a decorar pelos quadros. Vão ser fotos profissionais e inspiradoras por todos os lados. E fotos das minhas diversões ao longo da vida. Eu vou ter uma cama de casal para poder levar quem eu quiser. E o lençol tem que ser branco. Não vou precisar decidir se vou casar ou comprar uma bicicleta. Eu vou comprar uma bicicleta e pronto. A minha casa vai ter sempre gente, mas alguns dias eu vou preferir ficar sozinha a ler um livro e a tomar um bom vinho. Nalgumas noites vou tomar leite com Nesquik vestida com o meu casaco de lã. Ver aquela comédia romântica pela décima vez e adormecer antes de chegar o final, que é a parte mais previsível. Outras noites eu vou simplesmente sair. A noite é feita para aqueles que ainda não encontraram o amor da vida, então eles vão distribuir esse amor com um monte de gente por aí. Vou continuar a ter os meus inúmeros “casinhos” amorosos, mas vai sempre haver um que tira a minha noite de sono, seja a rolar na cama ou porque estou a desabafar sobre ele com uma amiga ou com o Word. Depois vai passar e eu vou apaixonar-me de novo e de novo. E eu não vou ter problemas em conhecer outro rapaz incrível numa viagem que eu fizer sozinha, porque o meu coração vai ser só meu. Eu vou viajar quinta à noite sem avisar ninguém (só o meu chefe), porque um amigo conseguiu alugar uma casa aqui pertinho. Eu vou juntar dinheiro, fazer uma viagem por toda a Europa.

Todos os dias vão ser diferentes porque nunca fui muito de rotina. Sexta eu vou chamar as minhas amigas para fazer uma comida diferente em casa enquanto nós esperamos a cerveja gelar. Domingo eu vou fazer um almoço para aqueles que eu mais gosto, depois vou ao cinema ver um filme de culto que eu não entenda nada. Noutro fim de semana eu vou sair para dançar, tomar umas bebidas diferentes e voltar para casa sozinha, mas com o coração cheio, porque sair só para dançar é uma das coisas que me deixam mais completa. Por mais que nenhum rapaz acredite, uma das coisas que as mulheres mais gostam de fazer é sair SÓ para dançar. A gente gosta de se sentir bonita, viva, feliz e desejada, mas isso não quer dizer que queremos sair de lá com um rapaz qualquer. Um rapaz qualquer não substitui a felicidade que é dormir sozinha até ao meio dia porque passamos a noite a dançar as nossas músicas preferidas junto com as nossas amigas preferidas. Isso também não quer dizer que nós não nos importemos com sexo. Até porque eu ligo bastante. Mas entre ter sexo sem significado e passar uma boa noitada a suar a roupa ao ritmo de uma boa música, eu fico com a segunda opção. É muito bom sentir-se desejada, mas ao mesmo tempo não sentir desejo por ninguém.

Noutros fins de semana eu vou para a praia cedinho, vou fazer sumo verde e fingir para mim mesma que agora eu tornei-me definitivamente saudável. E já que um grupo de amigos simpáticos e bem dispostos é tudo o que uma pessoa solteira precisa, é com eles que vou dividir os meus dias, por mais que todos comecem a casar-se. Vou estudar fora. Depois vou viver um tempo em São Francisco, porque dizem que lá é a minha cara e eu quero entupir-me de conhecimento, cerveja e de pessoas que aquecem o coração.

Enfim, vou descobrir que de nada vale encontrar o amor da vida se eu não viver o melhor da vida comigo mesma. Então, se ele não chegar, eu vou viver a minha vida como eu sempre vivi, sem esperar um feliz para sempre e investindo no feliz agora. Vai ter espaço para muito amor, por mais que eu me sinta sozinha alguns dias, por mais que me olhem com cara de pena, por mais que achem que eu me envolvo com várias pessoas para preencher esse vazio. Mas não tem vazio nenhum, é só muito amor para dar e pouca vida para ser desperdiçada.

E se por um acaso isso de amor da vida existir, eu vou saber quando ele chegar porque eu não vou precisar abrir mão de nada disso.

Texto de Marcela Picanço

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