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Somos só amigos

Repeti estas três palavras mais vezes do que aquelas que consigo contar, na esperança de que começassem, misteriosamente, a fazer sentido. Queria que acreditassem em mim, queria conseguir convencer o mundo, e a mim própria, que elas eram verdade. Agora sei que nunca, nem por um segundo, te considerei apenas meu amigo. E duvido seriamente que algum dia isso fosse possível.

Admito que gostava de ser como tu, despreocupado, desapegado, livre de um abismo a que chamam amor. Gostava de saber distinguir um olhar apaixonado de um olhar sedutor, um beijo carinhoso de um beijo sem amor. Gostava de me desenlaçar dos teus braços sem me sentir perdida, desorientada, sem sentir qualquer vontade de voltar. Gostava de aproveitar o teu corpo sem a dor de saber que não o tenho, e o teu coração sem a raiva de saber que não queres o meu. Eu até gostava da ideia de sermos ”só amigos”, até que essa ideia deixou de ser suficiente.

Percebi, então, que há poucas coisas na vida mais assustadoras do que entregarmo-nos a alguém que tem os braços fechados. É um abismo, é o tal abismo inescapável. Agora sei disso.

Talvez um dia, já com a nossa vida feita, nos encontremos aleatoriamente na rua e percebas o quão feliz eu te poderia ter feito. Talvez seja esse o dia em que a tua vida deixa de fazer sentido, porque a tua mulher não sou eu e não tens, afinal, ninguém que te ame da forma louca com que eu te amei. Talvez sintas o peito vazio e um nó de arrependimento no estômago ao reconhecer que eu fui aquela rapariga que te passou ao lado. Talvez vejas, finalmente, que a tal ideia de sermos só amigos foi a pior ideia que alguma vez tiveste.

Nesse dia, no entanto, sorrirei ao ver-te como faria para qualquer outro amigo, sem qualquer tipo de remorso pois, dos meus lábios, nunca ficou nenhuma palavra por dizer e, de mim, não houve um único pedaço que não te amasse.

Anónimo

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