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O que ficou de ti.

Sinto que tudo em ti ainda me pertence. Talvez tu um dia namores, te cases, comemores inúmeras datas especiais, aproveites convites de sexta-feira à noite e finalmente tenhas filhos e um animal de estimação. Só quero que saibas que tu podes tentar reencontrar o que ficou de mim em ti, mas nunca me encontrarás. Talvez em algum detalhe tu te lembres de mim, mas não serei eu. Se isso te dói a ti, não sei, mas a mim dói só de pensar que eu posso encontrar alguém melhor do que tu, mas não o mesmo. Dói saber que tu podes até conhecer alguém melhor do que eu, mas ninguém além de mim conhecerá o que tu foste comigo.

Ninguém conhecerá o sinal atrás da tua orelha esquerda, nem descobrirá que tu sentes cócegas no meio da palma da mão. Ninguém notará que o teu ”amo-te” em frente das pessoas sai trémulo, que tu coças o nariz quando estás nervoso. Ninguém descobrirá que a tua sobrancelha treme quando tu mentes, que os teus dentes caninos têm marcas de flúor. Ninguém passará 12 horas numa fila para comprar o teu livro preferido e conseguir o autógrafo do autor. Ninguém deixará de ir a uma entrevista de emprego porque tu ficaste doente, nem ficará uma tarde de sábado com a tua mãe enquanto tu não chegas do trabalho porque ela teve uma crise de asma. Ninguém notará que o teu jeito de sorrir repuxa os lábios e faz a tua testa enrugar, nem descobrirá o teu tique nervoso quando tentas soltar piscadelas e acabas por te confundir todo. Quero dizer-te que o que ficou de ti é espontâneo, tudo o que ficou comigo ficou porque existiu uma necessidade para ficar, tudo ficou para ser lembrado mesmo quando eu não tenha vontade de lembrar, e nada nem ninguém sentirá o que tu sentiste comigo e me fizeste sentir um dia. O que seria dos momentos se não fossem eternizados, o que seria da partida se não deixasse nada nem levasse, pelo menos, um pouco e nós?

O que ficou de ti ocupa o lugar vazio da mesa, estica-se pelo sofá e ocupa a minha cama todas as noites. E quando eu acordo, o teu ”bom dia” ecoa pelo quarto, quando me deito o teu cafuné acaricia a minha nuca e os teus beijos chegam a todo a hora. Quando ligo a TV o teu programa preferido passa, quando desligo a TV a saudade bate à porta. Quando penso em te ligar lembro-me que é melhor evitar levar um não, que é melhor evitar confundir as coisas e insistir no que já passou e no que parece não ter a menor pretensão de acontecer de novo. Quando penso em pretensão acabo por te querer, quando te quero, acabo por me perder, quando me perco, percebo que são só lembranças. E aqui, eu guardo – e muito bem guardado – todas as tuas manias e os teus cuidados, os teus sorrisos e as tuas mordidas, os teus olhos e também a tua saída.

Quando chove lembro-me que tu te molhavas todo com uma preocupação tola de que não querias ver-me com gripe outra vez quando dividíamos o guarda-chuva. Por aqui, ficou o vazio dos teus sapatos atirados no canto do quarto, uma mensagem a dizer que era o fim e uma conversa numa sexta-feira à noite a lamentar por não podermos continuar mais. Ficou o teu olhar de adeus, a minha compreensão – não tão compreendida – de aceitar que tu estavas realmente a ir embora. Ficou aquele abraço frio, o nó na garganta quase a pedir para tu não ires. Ficou também a última chamada que precisei ignorar, ficou a tua insistência em falar de novo comigo, ficou a tua voz a pedir desculpas por tudo e a minha quase a pedir-te para ficares e a propor-te tentarmos outra vez, mas tive que dizer: tudo bem, vou seguir a minha vida também. Ficou a tua última pergunta a sugerir que nos tornássemos amigos, a minha resposta não dada e o silêncio que eu preferi manter. Ficou o desejo de te procurar como várias outras vezes procurei, mas dessa vez eu preferi não me repetir. Tu não vieste e eu não fui, e essa vontade de nós nos vermos mas que nós preferimos evitar, ficou também.

Cheguei a pensar em como eu iria acostumar-me com a tua ausência, perguntei-me até quando tu ficarias aqui mesmo não estando mais, e o que fazer para me acostumar sem ti. E as músicas que cantávamos juntos, e os discos que escolhíamos juntos. E o que eu digo se o teu dentista me ligar? E o que eu digo à tua mãe se ela me procurar? E como eu explico para os nossos amigos que hoje eu vou sair só e que, na verdade, nunca te pertenci? E o que eu digo se me perguntarem por ti, o que eu invento para te esconder e o que eu digo para que ninguém perceba que apesar da distância tu ainda está aqui, bem perto?

E quando tu te preocupavas com o meu silêncio, quando tu me questionavas se tinhas feito algo de errado porque tu às vezes falavas coisas estúpidas e nem percebias. E todas as manhãs tu estavas ali, mesmo não ocupando a minha cama ocupavas a minha caixa de mensagens. E todas as tardes tu aparecias e mesmo não me olhando nos olhos, sabias como os meus desejavam ver-te naquele momento. O que ficou de ti dá-me um medo danado só em pensar que eu posso encontrar-te com outro alguém e ter que fingir que está tudo bem, que está tudo certo. Preciso dizer-te que, de todas as coisas que tu deixaste, a pior e não menos dolorosa, é aquele restinho de sentimento no fundo da gaveta, coberto por saudade abarrotada, é aquela lembrança debaixo de tanto entulho que eu fingia não me importar mais, aquele restinho de amor empoeirado que eu nem sabia que existia. O difícil é quando o amor resolve ficar mesmo quando tudo o resto já foi.

Texto de Iandê Albuquerque

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